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    O monstro (Rússia) no fundo do abismo

    O Monstro no fundo do abismo

    18 novembro 2008

    Num artigo publicado em 6 de outubro pela revista STRATFOR, intitulado A questão alemã, George Friedman despejou um balde de lógica fria sobre os planos americanos para o futuro da OTAN. Parece que a Alemanha está determinada a bloquear o ingresso da Ucrânia e da Geórgia na OTAN. As implicações de longo prazo desta decisão são atordoantes. Friedman explica: “Uma vez que a OTAN opera na base do consenso, qualquer nação membro pode efetivamente bloquear qualquer candidato a membro da aliança”. A invasão russa à Geórgia forçou a Alemanha a adotar essa posição. O conflito obrigou os alemães a deixar claro o seu pensamento geopolítico. O que vemos agora, com bastante clareza, é a Alemanha rejeitando a OTAN. Os alemães podem chamar o seu gesto como bem quiserem. Eles estão pensando como alemães. O ataque russo à Geórgia foi uma tacada de mestre, pois redirecionou a sensibilidade política da Alemanha, de uma visão centrada na OTAN, para uma visão centrada na Alemanha. Na Europa, há uma questão que se ergue acima de todas as outras, e os alemães darão a resposta. Ou a Europa enfrentará a Rússia numa nova Guerra Fria, ou se tornará parceira da Rússia. De acordo com a lógica de Friedman, a Alemanha já se decidiu pela parceria com a Rússia.

    Imaginem uma parceria entre Rússia e Alemanha. Os russos fornecem a musculatura militar, os recursos naturais e a mão-de-obra barata. Os alemães fornecem a tecnologia, o dinheiro e a finesse européia. Friedman diz que a situação energética da Alemanha é “desesperadora” e que as lideranças alemãs estão meramente buscando seus interesses nacionais. É importante lembrar, porém, que os alemães vêem tanto a cenoura quanto a vara, os prós e contras. Os líderes alemães não estão apenas evitando a dor. Eles estão sendo tentados por uma parceria com a Rússia, especialmente quando as estruturas financeiras globais estão implodindo. Tal como ressalta Friedman, o “problema político” da Alemanha é a sua posição geográfica no centro da Europa. A Alemanha tem os olhos voltados para o Ocidente ou para o Oriente?  Ela se alinha à Rússia ou aos anglo-americanos e franceses?

    Ora, mas é claro que a Alemanha entende que seu destino repousa no Ocidente! Tal conclusão, todavia, pode ser razoável apenas para quem vê os acontecimentos à distância. Ela não é tão imediatamente razoável para as lideranças alemãs, tentadas que estão pela perspectiva de um papel “reformador” vital na Europa. A União Européia não está funcionando apropriadamente e o euro pode estar indo para lata de cinzas da história. O sistema da OTAN, por tanto tempo dominado pelos Estados Unidos, é cada vez mais inconveniente do ponto de vista alemão. Pode ser que, de fato, seja um plano um tanto estouvado aliar-se ao Kremlin – que prefere métodos asiáticos. Mas tal parceria apela tanto à vaidade alemã quanto ao seu senso prático. Os russos dão valor aos alemães; eles sussurram doces lisonjas aos ouvidos da Alemanha. O primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, fala alemão fluentemente e até possui traços germânicos, além de compreender o pensamento alemão, o que lisonjeia ainda mais os alemães. É um caso complexo de sedução.

    Como é que, lá no fundo, os alemães se sentem a respeito das intenções russas quanto à Geórgia e Ucrânia? Os alemães estão prontos a raciocinar em termos de seus próprios interesses nacionais. Eles estão tentados a desconsiderar a OTAN. Talvez estejam enjoados de serem prisioneiros da OTAN. Afinal, a Alemanha foi derrotada na II Guerra Mundial e se viu presa na armadilha da Guerra Fria entre Rússia e Estados Unidos. Esta não é uma situação que agüente uma repetição. Um conflito entre a Rússia e a OTAN não é do interesse nacional alemão. A amizade com a Rússia traz uma promessa – ainda que seja falsa.

    A França e a Grã-Bretanha desejam desafiar a nova postura agressiva da Rússia. A Alemanha não quer isso de jeito nenhum. Os Estados Unidos buscam trazer a Ucrânia e a Geórgia para a OTAN. A Alemanha não quer isso de jeito nenhum. Há uma rachadura séria na OTAN. Os alemães encontrarão um caminho de saída da OTAN? O senso comum supõe que isso é impensável. Todos sabem que a Rússia é perigosa. Fazer parceria com a Rússia é brincar com fogo. Cedo ou tarde a Alemanha irá se queimar. Ao mesmo tempo, porém, os eventos recentes na Geórgia ensinaram algo aos alemães. De repente, a Alemanha se viu diante de uma escolha desagradável.

    A OTAN, como instituição criada para resistir aos russos, está num avançado estado de decadência. Para ressuscitá-la, os alemães teriam de pagar um altíssimo preço econômico”, ressalta Friedman. Está muito claro que os alemães já decidiram abandonar a missão da OTAN e partir em busca de seus próprios interesses econômicos de curto prazo. Aonde isto os levará no longo prazo é óbvio. Chegará o dia em que Rússia e Alemanha entrarão em conflito e os Estados Unidos não estarão por perto para ajudar a Alemanha. E talvez a crise em Wall Street tenha ressaltado a futura irrelevância dos Estados Unidos para a Alemanha. Afinal, os EUA estão entrando em colapso.

    Portanto, a OTAN está encrencada. Ela não pode existir por muito mais tempo. Os russos são astutos ao jogar suas cartas diplomáticas, econômicas e militares. Ao seduzir os alemães para uma parceria, abrem o caminho para a destruição da OTAN por vias diplomáticas. “A OTAN não tem poder militar real para projetar-se ao leste e nenhum poder será criado sem um grande esforço alemão e, neste sentido, nada está por vir”, escreveu Friedman. A lógica da análise de Friedman não pode ser contestada. O Kremlin olha para o colapso em Wall Street e enxerga uma oportunidade. Em 2 de outubro, durante a coletiva de imprensa conjunta que reuniu a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente russo Dmitri Medvedev, este último disse: “Um dos temas complicados que discutimos foi o da crise financeira. Chegamos à conclusão de que, mais uma vez, o atual sistema de segurança financeira global, assim como o sistema de segurança internacional, não satisfaz as necessidades presentes. As falhas no modelo econômico adotado pelos Estados Unidos da América são sérias, e hoje nós estamos pagando por elas”. Num discurso ao Fórum Público Russo-Alemão, o presidente Medvedev traduziu a atual crise financeira em linguagem geopolítica: “O que demonstraram os eventos recentes? Demonstraram que o tempo em que uma economia e uma moeda dominavam o globo se foi, irremediavelmente. E nós precisamos de soluções coletivas para resolver a crise financeira causada pelo egoísmo financeiro…”. Em outras palavras: deixem os americanos sofrer o seu destino. Agora, a Europa está face a face com a Rússia. A Europa desejaria opor-se à Rússia por conta própria? Os russos estão forçando a Alemanha a tomar uma decisão. “É possível que hoje ainda haja alguém desejoso de voltar à primitiva divisão do mundo em termos de ‘nossos’ e ‘deles’, de ‘o certo’ e ‘o errado’, mas na Rússia estamos convencidos de que essa época acabou definitivamente. É impossível reviver o Muro de Berlim, tanto quanto é impossível retornar à Guerra Fria – não há razão para isso”.

    O presidente Medvedev está dando uma piscadela para os alemães e a mensagem implícita é: Vocês sabem o que fazer… Vocês não querem nos confrontar. Vocês precisam de nós. A perversidade das intrigas da KGB em Moscou não é a questão. É preciso olhar “além do bem e do mal”, para as duras realidades da situação. A Alemanha quer sentir o deprimente frio do inverno, sem os benefícios do petróleo e gás russos? Esta não é uma posição sensata e a Alemanha sabe para onde ir. A OTAN está acabada e os Estados Unidos entrarão em colapso. Conseqüentemente, a Europa precisa de uma nova “arquitetura de segurança”. Trocando em miúdos, a Europa agora pertence à Rússia e os alemães deveriam fechar um acordo enquanto os russos estão de bom humor. Se o primeiro-ministro francês diz que o mundo está “à beira do abismo”, o monstro que o aguarda no fundo é a Rússia.

    Fonte: © 2008 Jeffrey R. Nyquist

    Publicado por Financialsense.com     

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